“Há muita vida fora dessa caixinha que chamam de lar. Avô não foi feita para cuidar de neto”, diz a cearense, destacando que não acha justo ver mulheres receberem os filhos e netos de volta em casa após casamentos desfeitos.

Após anos trabalhando como Assistente Social em presídios do Ceará, numa rotina de violência, Josefa Feitosa, ou Jô Feitosa, como é conhecida, resolveu se “autocondenar” à liberdade após se aposentar há dois anos. Hoje, aos 59 anos, ela já conhece quase 40 países e só volta ao Brasil para renovar o passaporte.

“Depois de criar três filhos, dar o sangue, suor e lágrimas por trabalhos estressantes e mal remunerados, relacionamento sem respeito, reciprocidade e o escambau, resolvi me dar prazer e alegria”: foi assim que Jô se apresentou no perfil do Facebook da BBC News Brasil ao comentar em uma reportagem sobre mochileiras aos 60 anos. Ela também queria ser inspiração.

“Há muita vida fora dessa caixinha que chamam de lar. Avô não foi feita para cuidar de neto”, diz a cearense, destacando que não acha justo ver mulheres receberem os filhos e netos de volta em casa após casamentos desfeitos.

Filha

A servidora pública Lilith Feitosa, filha mais nova de Jô, ainda terminava a sua graduação quando a mãe disse que estava saindo de casa. A mistura de surpresa, raiva e saudade foi dando espaço ao entendimento pelo momento que a mãe queria viver.

“O usual é os filhos saírem de casa e os pais ficarem com a síndrome do ninho vazio. Comigo foi o contrário. Mas vejo que ela se reinventou: vinha sendo mãe a vida inteira, mas resolveu ser outra coisa”, diz a jovem de 24 anos.

Mochileira

A reinvenção de Jô também veio para o tipo de viagem. Saíram de cena hotéis caros, malas de rodinha e entraram mochilas, albergues e quartos coletivos. O ambiente, geralmente mais jovem e de interação, estimula o contato com viajantes, mesmo que seja a partir de um inglês “capenga”.

No Camboja, fez amizade com uma congolesa que sabia falar português e leu o que estava escrito em sua camisa: “Como se escreve felicidade? Viajar”. Também encontrou um dos muitos companheiros de viagem, o português Victor, um encantamento “passageiro”.

 Com Victor, rodou o Camboja e o Vietnã de moto, o meio de transporte mais comum por lá.

Para os filhos que ficaram, a preocupação com a mãe aos poucos vai se dissipando, na medida em que ela vai ganhando mais experiência pelo mundo. Jô já perdeu celular no Quênia, passou por situações de assédio no metrô de Nova Delhi, na Índia, e chegou a ficar dois dias sem dar notícia.

Mais tarde, os filhos souberam que ela estava com novos amigos num acampamento de beduínos nas margens do Mar Morto e, por isso, sem conexão. A cearense, entretanto, minimiza sua coragem: “O segredo é você acreditar nas pessoas. As pessoas não são más. Se não confiar, não vale de nada sair por aí sozinha”, aconselha.

Turismo individual

E Jô, enquanto mulher, não segue desacompanhada. De acordo com último levantamento sobre “intenção de viagem” divulgado pelo Ministério do Turismo, em 2017, 17,8% das mulheres brasileiras desejavam viajar sozinhas nos próximos meses – índice maior que a de homens (11,8%).

Já em pesquisa de outubro de 2018, a companhia aérea British Airways revelou que 50% das brasileiras já viajaram sozinhas e que 56% pretendiam fazer esse tipo de viagem nas próximas oportunidades. A pesquisa foi realizada, segundo a empresa, por causa da percepção dos funcionários sobre o aumento do número de mulheres sozinhas nas aeronaves.

Economizar para viajar

 Antes de se aposentar, Jô já dava sinais que iria ganhar o mundo. Sempre falava em viagens, gostava de ficar fora de casa e economizava dinheiro. “Eu não achava que ia se tornar realidade. Me perguntava o que tinha de errado com a vida dela: qual é o problema em ter raiz?”, dizia Lilith. Jô respondia: “Casa prende muito a gente”.

A cearense conta que passou a fazer economia de verdade a partir de 2008, sem revelar o quanto acumulou nos oito anos seguintes. Dois anos antes de iniciar sua saga, em 2015, cortou todos os “luxos” e passou a viver, segundo a própria, de forma “franciscana”. Não saía mais aos fins de semana, cortou idas a restaurantes, a salões de beleza e gastos com roupas e outros bens materiais.

Certa vez, estava numa palestra e uma aluna a perguntou se ela estava precisando de dinheiro emprestado para pintar o cabelo. “Eu tinha que me acostumar com uma nova vida. Se eu queria viajar por aí, não iria mais tratar do cabelo. Então, fui encarando já essa realidade”.

Renda mensal

Com o aluguel do apartamento e a aposentadoria, a sua renda mensal atualmente é de R$ 8 mil, que usa integralmente nas viagens.

Durante a volta ao mundo, Jô também economiza. Carrega o próprio pó de café, tem uma jarra elétrica para fazer água quente, macarrão instantâneo e come bastante vegetais, evitando uma dieta com carne.

Outra dica é: antes de entrar nos países, tentar ao máximo se acostumar com o valor da moeda, pesquisando a cotação, para não fazer maus negócios. “Não saio gastando. Não vou morrer se não fizer tudo turístico que tem numa cidade. Eu fico olhando as pessoas apressadas, mas eu sigo devagar”.

Diário de viagem

Assim como mantém um diário de viagem no Facebook, a aposentada também registra a vida em cadernos, desde os anos 1980. Nesses diários, já relatou a vida de casada e a chegada dos seus três filhos. Hoje, relata as viagens.

No caderno que a mãe deixou com Lilith, está a passagem de sua gestação, da descoberta ao parto, em 1994. Ler os relatos é a forma que a filha encontrou para matar a saudade da mãe quando não a tem por perto. “Ela conta nesse diário como foi a espera por mim. Agora, eu que espero por ela”.

Matéria produzida pela BBC/Brasil/ Editada por Blog de Ponta Cabeça

Leia a matéria completa:https://www.bbc.com/portuguese/geral-47365613

Fotos: BBC /Brasil e Facebook da Jô

Instagram: jofeitosa1